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O extra-oral não oferece riscos para as vias aéreas? Um novo estudo

By on January 18, 2018 in Portuguese with 0 Comments
O extra-oral não oferece riscos para as vias aéreas? Um novo estudo

 

A relação entre o tratamento ortodôntico e as vias aéreas é uma área nova e controversa na Ortodontia. Um estudo recentemente publicado pode nos trazer novas respostas para essa questão.

Um dos novos benefícios do tratamento ortodôntico descoberto recentemente é a melhoria da respiração das crianças. Eu escrevi sobre isso recentemente. A premissa básica promovida é que as forças de protração na maxila aumentam o volume das vias aéreas.

Paradoxalmente, as forças de retração do extra-oral ou de retração dos dentes superiores restringem a língua e/ou as vias aéreas, o que causaria desordens do sono e outros problemas. Portanto, tal área é claramente importante. Não existem estudos clínicos controlados sobre tal patologia e a maioria da evidência está no nível de relatos de caso e opinião pessoal.

Em vários aspectos, algumas oportunidades podem ter sido perdidas. Por exemplo, os pesquisadores nos “clássicos” estudos do tratamento precoce da Classe II não avaliaram as vias aéreas. Quando desenhamos os nossos estudos, nem considerávamos que os tratamentos ortodônticos pudessem influenciar nas vias aéreas. Isto ocorreu, provavelmente, porque o problema não tinha sido identificado nos pacientes submetidos ao tratamento ortodôntico.

Sendo assim, eu fiquei muito interessado em ver esse novo estudo. Ele observou o efeito do extra-oral com tração cervical sobre o padrão esquelético e as vias aéreas.

Um grupo de Oulu, na Finlândia, fez o estudo. O EJO publicou o artigo.

Airway and hard tissue dimensions in children treated with early and later timed cervical headgear—a randomized controlled trialJohanna Julku, Kirsi Pirilä-Parkkinen, and Pertti Pirttiniemi

European Journal of Orthodontics, doi:10.1093/ejo/cjx088

Eles perguntaram se:

“O tempo de tratamento com extra-oral cervical tinha um efeito sobre as dimensões das vias aéreas na região da faringe”.

O que eles fizeram?

Eles fizeram um estudo controlado com grupos paralelos e alocação de 1:1. A PICO foi:

Participantes: crianças com 7 anos de idade, má-oclusão de Classe II, overjet maior que 6 mm e mordida profunda. Os pesquisadores selecionaram as crianças de um programa escolar.

Intervenção: Extra-oral cervical convencional quando a criança estava com 7 anos de idade. Este foi o grupo de tratamento precoce.

Comparação: Ausência de tratamento ativo. Este grupo foi observado por 18 meses. Após este tempo, eles foram tratados com o extra-oral de tração cervical. Este foi o grupo de tratamento tardio.

Desfecho: Análise cefalométrica dos tecidos duros e das dimensões das vias aéreas. Eles coletaram os dados ao início do tratamento (T0), após o tratamento precoce com o extra-oral/observação (T1) e quando todos os tratamentos foram completados (T2).

Eles fizeram o cálculo do tamanho da amostra, mas não ficou claro para mim o tamanho do efeito que foi usado.

Eles utilizaram uma randomização pré-preparada. A alocação e o ocultamento foram feitas utilizando-se envelopes selados. Eles não puderam cegar os operadores e os pacientes para a intervenção. Apesar disto, a análise cefalométrica foi cegada.

O que eles encontraram?

Eles randomizaram 67 crianças para os grupos de tratamento precoce e tardio. Sete crianças do grupo tratado precocemente e 4 do grupo tardio não completaram o estudo. Eles não fizeram uma análise de intenção de tratamento.

Eles apresentaram os dados em duas tabelas cefalométricas robustas e analisaram muitas variáveis. Nós precisamos ter cautela ao interpretar os dados por conta do risco de encontrarmos significância estatística ao acaso devido ao teste de múltiplas variáveis relatada.

Eu não tenho espaço para analisar todas as variáveis que foram medidas. Porém, em resumo, eles encontraram o seguinte:

1          Ocorreu um maior movimento posterior da maxila nos pacientes tratados precocemente. A diferença média entre o grupo tratado precocemente e o tardiamente foi de 1,2 graus. Efeitos parecidos foram encontrados para o ANB.

2          Quando eles observaram as medidas da faringe, não encontraram um efeito do tratamento com o extra-oral.

Eles concluíram:

1          O extra-oral corrigiu efetivamente a má-oclusão de Classe II

2          O tratamento com o extra-oral não teve um efeito sobre as dimensões das vias aéreas.

O que eu pensei?

Este foi um estudo bem conduzido e muito ambicioso. Os autores o relataram muito bem e fizeram uma boa discussão sobre os achados.

Como em todos os estudos, existem problemas e nós precisamos analisá-los com cuidado para ver o quanto podemos confiar nas conclusões.

O primeiro e mais importante problema é a escolha de uma medida cefalométrica como uma medida de desfecho. Isto, é claro, significa que eles somente puderam medir as dimensões das vias aéreas em duas dimensões. Assim, eu estou certo que muitos clínicos não aceitarão estes achados. Porém, quando começaram o estudo, estou certo de que as imagens de CBCT exporiam as crianças a altos níveis de radiação e não sei bem se isto seria justificável.

Um outro problema é que eles não mediram o fluxo aéreo da nasofaringe, uma vez que esta é a medida de desfecho mais relevante. Mais uma vez, eu acho que isto seria mais do que o necessário para este estudo.

Eu tenho pensado sobre isso cuidadosamente e acho que devemos aceitar que o estudo é o melhor que nós podemos ter. Ele é certamente melhor do que a atual “evidência” que é baseada em poucos relatos de casos e opinião pessoal.

Em resumo, eu acho que este artigo acrescenta e é interessante que os achados não suportem as opiniões atuais e as percepções daqueles que estão sugerindo que as mecânicas de retração comprometem as vias aéreas. O estudo também fornece um modelo para futuros estudos que podem ser conduzidos. Talvez os praticantes miofuncionais e os médicos ortodontistas devessem conduzir um estudo? Até lá, isso é o melhor que temos.

 

Traduzido por Klaus Barretto Lopes

Instrutor de Ortodontia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil

Professor Visitante da Universidade de Manchester, Inglaterra, Reino Unido

 

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