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Tratamento ortodôntico baseado em evidências – nenhuma boa ação fica sem punição

By on November 24, 2016 in Portuguese with 0 Comments
Tratamento ortodôntico baseado em evidências –  nenhuma boa ação fica sem punição

Tratamento ortodôntico baseado em evidências –  nenhuma boa ação fica sem punição

Eu e o Professor Lysle Johnston fizemos uma apresentação conjunta em Setembro durante a Conferência Britânica de Ortodontia. O foco foi em tratamento ortodôntico baseado em evidências. Nós decidimos escrever sobre isso em dois posts no meu blog. O primeiro deles foi baseado na minha apresentação.

img_0095Incerteza, evidência e participação do paciente na decisão

A incerteza está presente em todos os aspectos da nossa vida. Isso é particularmente verdade para todas as nossas decisões clínicas. Nós nunca estamos 100% certos sobre os nossos tratamentos. Uma forma de reduzir a incerteza clínica é conduzir uma pesquisa e incorporar essa evidência nas nossas decisões. Paradoxalmente, as propostas de tratamento com baixo nível de evidência tendem a aumentar a incerteza clínica.

Todos nós devemos estar familiarizados com a pirâmide da evidência clínica. Ela classifica os métodos de pesquisa que têm potencial para reduzir a incerteza. Mas isso não é tudo. Nós devemos nos lembrar que, para praticar os tratamentos baseados em evidência, nós também devemos considerar a experiência clínica e a opinião do paciente. Vale ressaltar que, quando não existir a evidência, a experiência clínica é importante. Mas nós devemos obrigatoriamente nos lembrar que, quando a evidência for forte, ela deve se sobrepor ao papel da experiência clínica. Eu postei sobre isso antes.

Já existem muitos experimentos realizados sobre tratamentos ortodônticos e nós estamos começando a estabelecer uma base de evidência forte. Infelizmente, eu não sei se nós estamos levando essa evidência para a nossa prática. Eu também me pergunto se nós estamos falando sobre essa evidência para os nossos pacientes de forma que eles possam tomar decisões informadas sobre os seus tratamentos. Uma solução para isso é um conceito relativamente novo de participação do paciente na tomada de decisão. Seriam documentos ou programas desenhados para informar as pessoas sobre a evidência existente. Recentemente, um grupo de Sheffield, do Reino Unido,1 publicou um estudo muito interessante sobre uma participação na decisão em ortodontia. Eu vou postar sobre isso em algumas semanas.

Eu ilustrei esse conceito ao colocar de forma simplificada uma participação na decisão de um paciente, desenvolvida a partir da evidência existente sobre os braquetes auto-ligados. Isso é somente uma ilustração, mas eu entendo que essa abordagem  poderia ser muito útil.

 

Braquetes auto-ligados
Pergunta Aparelho fixo Aparelho auto-ligado
O que o tratamento envolve? Usar aparelho fixo por 24 meses Usar aparelho fixo por 24 meses
Vai corrigir os meus dentes? Sim Sim
Vai evitar a remoção de dentes? Não Não
Vou sentir menos dor? Não Não
Minhas arcadas dentárias vão crescer? Não Não
O tratamento vai ser mais rápido? Não Não
Quando vai custar? Gratuito pelo NHS £3.000

 

Nós podemos alcançar esse nirvana ortodôntico?

Na teoria, eu espero que isso seja o início de um nirvana ortodôntico com todos nós trabalhando juntos para ajudar nossos pacientes a tomar decisões. Mas eu desconfio que esse não seja o caso, devido às propostas não comprovadas que estão sendo feitas sobre tipos de tratamento.

Eu também acho muito interessante que essa promoção de tratamentos não testados seja efetiva. De fato, eu me pergunto se a promoção é mais efetiva que o tratamento! Como resultado, eu investiguei o conceito de incerteza um pouco mais a fundo. Minhas maiores fontes foram dois livros sobre a incerteza na forma como pensamos (Nowotny e Kahneman). Em resumo, parece que os humanos tem dificuldade de pensar estatisticamente e nós não gostamos do acaso. Além disso, as nossas vidas são cheias de incerteza. Finalmente, um dos maiores problemas com a disseminação da pesquisa é que as incertezas são formuladas com precisão, ainda que cautelosamente. Isso é ilustrado por essas duas citações. A primeira é minha.

“Quando um tratamento com aparelho funcional é realizado no início da adolescência, parece que existem pequenas mudanças positivas no padrão esquelético, entretanto, tais mudanças não são clinicamente significantes”.

Eu peguei a segunda de um website sobre tratamento ortotrópico

“Também existe evidência para se sugerir que a melhora da saúde e da forma da face reduz problemas nas articulações mandibulares, no pescoço, nas costas, na fala e em outros problemas relacionados aos ouvidos, nariz e garganta2“, tais como sinusite, otite média e outras infecções do ouvido. Crianças e adultos com faces saudáveis e funcionais desfrutam benefícios vitalícios, incluindo todos aqueles que vem com um sorriso confiante e bonito”.

Quando você olha para essas duas citações fica claro que a mais atraente é a segunda, pois ela passa mais certeza. Entretanto, na minha opinião, ela não é suportada por evidências de pesquisas.

Existem soluções?

Qual é a solução para esse problema? Eu não posso deixar de considerar que é mais fácil falar do que fazer. Em resumo, nós precisamos educar. Isso significa que nós precisamos explicar os achados das pesquisas de uma forma mais compreensível e não confinar os nossos métodos de disseminação a artigos complexos em revistas. Nós também precisamos adotar os métodos utilizados nas mídias sociais para informar aos nossos pacientes sobre as evidências que suportam os seus tratamentos. Esses são os desafios que nós precisamos pensar a respeito.

A segunda parte desse post será feita por Lysle Johnston, onde ele discutirá o papel dos ensaios clínicos randomizados na pesquisa ortodôntica.

1- O autor utiliza a sigla “UK” que se refere a United Kingdom (Reino Unido). (N. do T.)

2- A sigla “ENT” utilizada na citação se refere a Ears, Nose and Troath (ouvidos, nariz e garganta). (N. do T.)

Traduzido por Klaus Barretto Lopes

Professor Visitante da Universidade de Manchester, Inglaterra, Reino Unido

Instrutor de Ortodontia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil

 

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